Tuesday, April 15, 2008

O atrevimento: LIBERTAD@ III

Destino: Um novelo de linhas emaranhadas, circunvoluções e nós que se fazem e desfazem consoante cada passo, cada inspiração, cada expiração. Possibilidades infinitas. Cada passo: Esquerda? Direita? - A decisão pode mudar uma vida. Muda uma vida. - Gostava de pensar assim. A força do momento. Viver ao segundo. Sabia que assim era.

Sentou-se a um canto, afastada. Joelhos dobrados para trás, olhos vazios a contemplar o infinito. Imaginava a estrada que percorrera, desde que nascera até a este preciso momento. Prisioneira de si própria.

Imaginou o dia em que nasceu num velho palacete do Séc. XIX algures nas terras geladas da Russia.

A tempestade lá fora fazia adivinhar os dias que se aproximavam. Pouco depois de ter nascido, a mãe morria, finalmente derrotada pela pneumonia que a tinha acompanhado durante a longa e complicada gravidez. O pai, ausente, ocupado pelo trabalho e pela boémia, tinha recebido ambas as notícias com indiferença - Ficaria entregue a uma tutora.

Os anos da sua infância passaram sem grandes marcas ou recordações. Fora feliz. Ri e lembra-se que já em criança todos faziam o que queria. Bastava sorrir e deixar uma leve suspeita do que desejava para que pouco depois lho viessem trazer. Não passava um dia sem que elogiassem a sua beleza e o seu desempenho na escola e em casa. Contava com isso e nunca se desiludiu.
Os anos foram passando e chegou a altura deles começarem a aproximar-se dela com intenções de estabelecer um olhar mais demorado, de lhe arrancarem um sorriso.. "Aquela fase", disse.

Mas nada. Sabia sempre que a observavam. Sentia-o, mas nunca se deixava levar. Não queria. Até que reparou nele.

Já o tinha observado da janela algumas vezes, sempre sem lhe ter dado demasiada importância, afinal, apenas aparentava andar a passear, ou a fazer algum tipo de entrega ou recado, pois sempre consigo trazia um saco preto. Já o tinha visto na escola também, nos jardins, à conversa. Provavelmente seriam até vizinhos.

Os dias foram passando e reparou que o via em praticamente todo o lado. No colégio, perto de casa, da janela do carro. No parque. Reparou que o olhar dele encontrava sempre o dela. Sempre. Começou a ficar intrigada e decidiu, um dia, prestar mais atenção ao que ele fazia por ali. Decidiu deixar de fazer de conta que não o via, para abrir descaradamente a janela e por-se a olhar fixamente para ele. Ia mostrar-lhe que sabia que ele estava sempre por ali a observá-la e que não achava piada nenhuma à situação. Foi com surpresa que o viu disparar num sentido tão rapidamente que o perdeu de vista. Bem, tinha conseguido assustá-lo, pelo menos.
O saco preto ficara para trás!

Correu, saiu de casa e só pensou em apanhar o saco. Nem sequer parou para pensar. Tinham passado semanas, meses, em que o tinha visto por todo o lado. Sempre com aquele saco ao ombro. O interesse não era no saco, mas nele. Talvez o saco ajudasse a descobrir quem era, e porque seria que oportunamente ele estava sempre onde ela estava.

Pegou no saco. A sensação de frio percorreu o seu braço como se tivesse apanhado um choque. Não hesitou. Correu o mais rapidamente que pode para dentro de casa. Fechou a porta. Respirou. Riu enquanto se deixava cair, segurando o saco na mão como se este fosse fugir.

Estava na hora de descobrir o que lá tinha dentro. Sentou-se e preparou-se para abrir o saco, mas de repente estacou quando viu que dele pingava uma substância qualquer. Tocou numa gota com os dedos indicador e polegar, esmagando-a entre eles, reparando que era espesso e pegajoso. Vermelho. Frio. Sangue. Gritou e atirou o saco para o fundo do corredor. Mas que raio! Seria sangue? Seria alguma tentativa estúpida de a assustar? Realmente, só agora se tinha apercebido que, se calhar, ele não tinha lá deixado o saco por acaso! Sentiu-se enganada e ficou furiosa. Olhou-se ao espelho. Cabelo apanhado à pressa, meio desalinhado sobre a testa pálida. Olhos azuis-aço. Maçãs do rosto ao rubro devido à excitação. "Coragem.." Respirou fundo e abriu o saco. Lá dentro um sem fim de objectos disformes cobertos daquela matéria vermelha. "Uma imagem nada agradável." E um bilhete:

"Encontra-te comigo naquele teu café do costume na Nevsky Prospect. Quando quiseres. Estarei lá."

Queria vingança. Ia sem dúvida ter com ele. Apenas precisava de acertar consigo mesma como o iria fazer aprender a lição.

Passados 10 minutos saiu. Sabia exactamente qual direcção tomar, afinal, todos os dias ia até lá tomar um café e observar quem entrava e saía. Adorava fazê-lo. Sentia-se parte do Mundo assim. Uma mãe com o filho, depois de o ir buscar à escola. Um grupo de homens a conversarem a um canto. A ocasional pedinte que entrava para pedir uns trocos. Era tudo fascinante. Poder observá-los, estar ali para os observar, mas sem eles o saberem. Pensarem-na um deles. Igual, com os mesmos propósitos. Poder reparar em tudo neles: Desde o olhar que lançavam disfarçadamente aos preços antes de pedir qualquer coisa, até ao chapéu que usavam - e porque seria que o usavam? Faziam com que se sentisse especial, as trivialidades dos outros servindo como catalisador para a sua paz interior. Afinal, todos eram iguais. Especiais.

"Boa escolha de local", disse de si para si. De certeza que se ia divertir ao ir lá ter com ele. E era seguro, todos a conheciam. Podia vir-se embora quando quisesse. Mas não sem antes deixar bem claro quem brincava com quem. Tinha uma excelente ideia em mente.

Chegou. Estranhou todo aquele silêncio naquela rua tão movimentada. Era certo que ao cair da noite era sempre mais sossegado, mas hoje era como se estivesse numa cidade fantasma.
Hesitou, pensou em voltar para casa, mas quando pensou no seu plano perfeito para o fazer pagar pelo susto que lhe pregara, seguiu em frente. Apenas teria sentido fazê-lo hoje, antes que perdesse a coragem. Seguiu.

Deu o primeiro passo no passeio em frente ao café. Estava escuro. Apagado. Empurrou a porta. Entrou.

Naquele momento, sentiu que o emaranhado de linhas sem fim que se entrelaçam num novelo e que fazem com que cada acção possa ter uma consequência diferente e levar a um qualquer diferente destino se apagavam e deixavam apenas uma. Convergiam todas num ponto, único, doloroso, situado do seu lado esquerdo, abaixo do braço. Onde estava encostado um qualquer objecto. E então ouviu, como se ele soubesse o que ela estava naquele momento a pensar:

- "Sim, aquilo era mesmo sangue. Sabia que vinhas."
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Oh, Miki, o meu atrevimentooooooo.. Desculpa, mas a tua história é "má". É tão viciante que dói. :P
E como andas desaparecido e dizes-te sem inspiração para a acabar, decidi por mãos à obra e continuar eu a construcção do castelo.. Por muito mau que seja, pelo menos que te enraiveça e que te leve a acabá-la! :P

[Sim, a intenção era essa.....]

Desculpa qualquer coisinha. x_X


2 Comments:

Blogger Mikael said...

LOL!

Tu não existes... só tu para pegares no meu personagem e criares uma estória da sua história ;) ainda para mais tão semelhante aquela que eu tinha imaginado para ela. Não que a tencionasse partilhar, mas simplesmente porque gosto de ter presente o passado dos meus personagens de modo a saber o que os motiva. Creio que os torna mais... reais.

Perfeito! :D O final do Liberta@ está escrito e prestes a ser partilhado, mas agora não o faço, porque quero saber a continuação da tua história :P

Abraço! ;)

post scriptum- fiquei tentado em desafiar-te para um projecto, mas isso depois eu digo-te pessoalmente :P

04:51  
Blogger Osidian said...

"O final do Liberta@ está escrito e prestes a ser partilhado, mas agora não o faço, porque quero saber a continuação da tua história :P"

Nãoooooooooooooooooooo....!

Saiu-me o tiro pela culatra? :(

Vá lá, não sejas mau, conta-nos o resto!

Ontem depois de escrever este texto e de o ter publicado lembrei-me que se calhar tinha sido má ideia.. Afinal, pegar naquilo que é fruto da tua criatividade e contorcê-lo à minha maneira podia ter ficado muito mal visto.. Mas és um fixe e ainda por cima, aparentemente, não me queres matar. :))

De qualquer das formas, não ousarei continuar. Agora a bola está do teu lado. Afinal, prefiro ler a escrever.. E como escrever escreves tu, e bem! - limitar-me-ei à leitura nos próximos tempos. :P

Abc,

O.

00:09  

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